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Os Ciclos Económicos



Neste artigo,pretendo expôr o básico da Teoria Austríaca dos Ciclos Económicos – TACE(desenvolvida por Ludwig von Mises em sua obra The Theory of Money and Credit), que é usada para explicar as criseseconómicas e financeiras. Isto requer uma compreensão dos conceitos de inflação edos juros.


Os bancos centraistentam manter as taxas básicas de juros no nível que desejam. A forma como esseprocesso ocorre não é tema para este artigo. Os mais curiosos podem ver um pouco de como isto ocorre na zona euro, no Brasil (parte 1 e parte 2), e nos EUA (parte 1  e parte 2). O que é importante mencionar aqui é quea taxa básica de juros, se fosse deixada livre, refletiria a preferênciatemporal presente dos indivíduos, e, assim, refletiria a quantia de poupançadisponível. Se as taxas de juros estão baixas, significa que há uma baixapreferência temporal e uma abundância de crédito (poupança) e uma demandagenuína por investimentos de longo prazo que requerem muitos recursos. Assim,os investimentos seriam realizados e gerariam empregos e lucros que poderiamser mantidos de forma sustentável, uma vez que haveria uma poupança para serinvestida e consumida durantes estes empreendimentos.


Para esclarecer,imagine a situação de Robinson Crusoé, que está sozinho em uma ilha, semrecursos além dos lá disponíveis. O que ele terá de fazer? Primeiro, devegarantir sua sobrevivência. Ele vai pescar para poder alimentar-se. Mas comoele não possui nenhum bem de capital, gastará muito tempo (recurso escasso)pescando e conseguirá apenas, digamos, quatro peixes por dia. Mas, em um belodia, ele decide consumir apenas três peixes, para que no dia seguinte pesqueapenas três (tendo quatro para consumir) e use o tempo que sobra para produziruma rede (o bem de capital) para pescar mais peixes em menos tempo. Suaabstenção de comer um peixe por dia (o peixe que ele “poupou”), e otempo que ele usou para produzir a rede foi um sacrifício que ele fez paramelhorar sua situação nos dias seguintes. Isto é poupança: uma abstenção deconsumo (um sacrifício) no presente para obter um benefício no futuro. Ao fazereste sacrifício, Crusoé conseguiu melhorar sua condição e parar de gastar o diatodo apenas para garantir sua sobrevivência. Agora, ele possui mais tempo paraadquirir mais recursos, construir mais bens de capital e melhorar sua condição.O empreendimento feito por Crusoé foi, portanto, um sucesso. Ele calculou demaneira eficiente a poupança que seria necessária para poder investir tempo naconstrução do bem de capital. Portanto, é a poupança que permite realizarinvestimentos que tornam os indivíduos mais produtivos, melhorando o padrão devida.


O problema équando o governo, por meio do banco central, expande o crédito e as taxas dejuros caem artificialmente. Como as taxas de juros estão baixas, aparentementehá poupança para sustentar os grandes investimentos que serão feitos com aexpansão do crédito. São feitos investimentos em imóveis, construção deestabelecimentos (como centros comerciais/shoppings e restaurantes) e muitosempregos são gerados. Investimentos que antes eram caros (ainda não haviapoupança suficiente), agora parecem baratos devido à expansão artificial docrédito, que eleva a renda nominal dos indivíduos, dando a impressão de que suariqueza real também aumentou. Haverá um aumento da demanda por trabalhadoresnestes setores e, portanto, maiores salários que atrairão muitas pessoas paratrabalhar nos mesmos. Muitas pessoas investirão tempo e dinheiro para podertrabalhar no setor e colher os frutos de altos salários. O problema é que estademanda é artificial e não é sustentável. Como não houve poupança genuína paraestes investimentos, não houve movimentação de recursos de um setor para outro.Ou seja, outros setores (como serviços) continuam necessitando de recursos emão de obra porque não houve abstenção de consumo (poupança). Assim, começa adisputa por mão de obra por meio de aumentos salariais. E, com a expansãoartificial do crédito, é fácil aumentar os salários nominais. O mercado deações também sobe e muitos começam a investir nas mesmas. Tudo parece estarótimo. As pessoas estão entusiasmadas com seus altos salários e o aumento dopadrão de vida.


Mas chega ummomento em que a festa acaba. O crédito artificial inevitavelmente criarádistorções na economia. Haverá vários maus investimentos (investimentosinsustentáveis devido à falta de poupança prévia) que terão de ser encerrados.Ou seja, haverá demissões, e, na melhor das hipóteses, salários mais baixos. Omercado de ações sofrerá forte queda. A fase do ‘boom’ terminará e chegará omomento do ‘bust’ e da recessão, quando ocorre uma ‘limpeza/liquidação’ dosmaus investimentos, ou seja, os recursos são realocados para serem utilizadosde forma eficiente. E, quanto maior tiver sido o boom (quanto mais intensa eprolongada tiver sido a expansão artificial de crédito), mais tempo levará pararealocar os recursos e mais dolorosa e prolongada será a recessão. Além disto, quanto maior for a estrutura produtiva do investimento (quanto maior for a intensidade de capital), maior será o impacto, pois há mais sensibilidade às taxas de juros. Um exemplo é o setor imobiliário.


Os recursosusados para esses investimentos foram, portanto, desperdiçados. Assim, osrecursos tornam-se ainda mais escassos, e assim, há menos recursos para realizarinvestimentos produtivos e sustentáveis. Há menos possibilidades de realizarinvestimentos de longo prazo, que oferecem salários reais maiores. Os empreendedoresvão se concentrar mais em investimentos de curto prazo: bens de consumoimediato (essenciais), como roupas ou alimentos, etc. Ou focarão mais nomercado financeiro, em busca de ativos que possam ser lucrativos (geralmente derenda fixa, pois, numa recessão, ações são mais arriscadas) ou, pelo menos, que protejamsua riqueza da inflação gerada pela expansão de crédito.


Para esclarecer,imagine a seguinte situação: você é dono de um restaurante bem frequentado.Tudo está bem. Você pode pagar seus funcionários e ficar com uma fatia do lucropara expandir o negócio ou fazer outro investimento. Porém, haverá um grandeevento desportivo em sua cidade que durará dois meses. Muitos turistasvisitarão sua cidade e seu restaurante terá mais clientes. Você se anima eamplia a capacidade do estabelecimento, aumentando as opções do cardápio,contratando novos funcionários e comprando novos bens de capital. Mas, quando oevento acaba e os turistas voltam aos seus países, o tamanho de sua clientelavolta ao normal e todos os investimentos que você fez não são mais necessários.Portanto, você terá de demitir a maior parte do pessoal. Pior: todos os bens decapital que você adquiriu por causa desse evento não são mais necessários, foisimplesmente um desperdício de dinheiro. Ou seja, você tem menos recursos agoraporque não sabia avaliar a demanda do seu negócio e por isso investiu mais doque deveria.


Agora imagineisto acontecendo em larga escala, nos diversos setores da economia, porque ogoverno interferiu nos juros e alterou e alterou a perceção da disponibilidadede recursos de todos os agentes económicos. Diversos maus investimentos comoeste ocorrerão ao mesmo tempo e haverá uma recessão.

 

Vamos supor também que você faliu por causa deste mau investimento. Os recursos utilizadospor você serão, portanto, liberados para outro empreendedor, que poderá usá-loscom mais eficiência. Quando uma empresa vai à falência é preciso deixar queisto aconteça, pois os recursos têm de ser liberados para que tenham a chancede serem empregados de forma produtiva.


O problema é que,como já mencionado, quando o governo reduz artificialmente as taxas de juros eexpande o crédito, ocorrem muitos maus investimentos ao mesmo tempo. Nestecaso, a quantidade de recursos que precisam ser realocados é muito maior. E piora quando o governo salva empresas (geralmente bancos ou grandescamaradas corporativos do governo) com impostos e/ou endividamento (financiado por meio de expansão monetária).

 

Se não houvesseum banco central garantindo o cartel de bancos públicos e privados, tais festas,como a da expansão artificial do crédito, não seriam possíveis de manter. Se umbanco começasse a expandir seu crédito artificialmente e os indivíduospercebessem que suas contas não estão devidamente garantidas, eles iriam correrpara retirar seu dinheiro daquele banco e pôr em outro mais responsável (sem umbanco central para garantir o arranjo, haveria mais incentivos para aconcorrência).


Para compreendermelhor o básico da TACE, recomendo este livro do professor Ubiratan Jorge Iorio, o pequeno livro de Murray Rothbard, EconomicDepressions: Their Cause and Cure e este pequeno vídeo do economista Fernando Ulrich.

 

André Marques

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