Na semanapassada, escrevemos sobre a situação da China Evergrande, mencionando, não só o problema dopossível calote da empresa, mas também as recentes intervenções do governo emdiversos setores da economia. E havia o questionamento de se o colapso daEvergrande seria o ‘Momento Lehman’ da China. Afinal, poderia mesmo ser? Nãoexatamente, mas isto não significa que não haveria efeitos negativos para aeconomia chinesa, e, por consequência, em outros países.


Primeiro, vejamosa ação da Evergrande, que teve uma pequena recuperação a partir do fim desetembro, mas ainda em tendência de queda:


Figura 1 – Açãoda Evergrande


Fonte:TradingView – Elaboração Própria.


Em parte, istoocorreu devido a venda de US$ 1.5 milhões/bilhão em participações do ShengjingBank. Porém, a empresa não realizou opagamento de juros de uma de suas dívidas que matura em 2024 (denominada emdólares americanos e emitida no exterior). Porém, isto ainda não constitui umcalote oficial, há um período de carência de 30 dias após a data do pagamentode juros, no qual a empresa pode realizar o pagamento.


Um potencialcalote da Evergrande não deve ser algo sistémico a nível mundial, considerando,também, que o governo deve resgatar a empresa. Não necessariamente através de umresgate direto, mas, por exemplo, de uma intervenção para que a empresa possafinalizar seus projetos.

 

Além disto, o nívelde exposição à Evergrande e ao setor imobiliário da China por parte deinvestidores e instituições financeiras ao redor do mundo não se equipara àexposição ao setor imobiliário em geral (e dos EUA em particular) em 2008. Ealém da bolha imobiliária dos EUA, havia bolhas em diversos países, como no Brasil e em Dubai (aqui e aqui).


Portanto, pode-seconsiderar que um calote da Evergrande não seria um ‘Momento Lehman’ da Chinano sentido de uma crise sistémica ao nível de 2008. Porém, pode haver impactosnegativos pois o crescimento chinês das últimas décadas foi em boa partebaseado no setor imobiliário (existem várias outras construtoras além daEvergrande, e, independentemente do resultado desta situação da empresa, osetor pode estar a se desacelerar). E uma desaceleração da China gerariaimpactos em outros países devido às relações comerciais, que seriam menos intensasdevido a uma atividade económica mais fraca por parte da China.


Outra grandeempresa de incorporação imobiliária da China é a Sunac, cuja ação sofreu umaqueda de 55.5% desde o início de abril deste ano. Em 2016, o setorimobiliário da China representava quase 30% do PIB do país.E os ativos imobiliários representavam, em 2019, 59.1% dos ativos das famíliaschinesas.

 

Mas há outrosfatores que podem desacelerar a economia chinesa. No artigo anterior, mencionamos diversas intervençõeseconómicas que o governo tem feito que impactam diretamente as receitas dasempresas e aumentam a insegurança jurídica (o que afasta investimentos). Maisum exemplo disto é a empresa Yunnan Aluminium, uma produtora de alumínio, quefoi ordenada pelo governo a diminuir sua produção. E, obviamente, isto teve impactoimediato na ação da empresa, que vinha a subir (o preço do alumínio tambémvinha a aumentar), mas caiu cercade 34.5% após esta intervenção:


Figura 2 – Ação da Yunnan Aluminium


Fonte:TradingView – Elaboração Própria.


Intervençõesdesta natureza são fatores que contribuem para choques de produção. Porém, háoutro fator que deve ser levado em consideração: os elevados preços decommodities energéticas, como carvão e petróleo, osquais o governo chinês tem tentado controlar através, por exemplo, da limitaçãode uso dos mesmos. Além disto, o governo pretende diminuir a emissão de CO2 (devido a uma alta dependência de usinas de carvão, a China é oprincipal emissor de CO2 do mundo). E se a produção industrial chinesa diminuirdevido a estas limitações, haverá repercussões não só na China, mas no resto domundo (que terá menos produtos disponíveis, podendo haver, portanto, mais umfator de elevação da inflação de preços).


Portanto, oprincipal fator de risco relacionado à China não é a situação específica daEvergrande, mas, sim, o setor imobiliário como um todo (cuja bolha foi provocadapela expansão monetária do banco central) e, sobretudo, as recentes intervenções económicas por parte do governo aindamais severas do que as presenciadas nas décadas passadas (o que limita a produçãoe aumenta a insegurança jurídica).


 

AndréMarques