Nota do Editor:Este artigo foi publicado em 31/12/2020, mas é uma boa fonte para compreendermelhor as consequências da política monetária do BCE em toda a zona euro.


Um dos grandeserros dos economistas é receber as medidas dos bancos centrais como se fossem averdade revelada. É surpreendente e preocupante que se considere obrigatóriodefender cada uma das ações dos bancos centrais. Isto, é claro, em público. Naprivacidade, muitos colegas balançam a cabeça sem acreditar no acúmulo debolhas e desequilíbrios. E, como em tantas ocasiões, a falta de críticasconstrutivas leva à complacência das instituições e a uma cadeia de erros quemais tarde todos os cidadãos lamentarão.


– Mantendo o Status Quo


A políticamonetária na Europa deixou de ser uma ferramenta para ajudar os Estados a fazeremreformas estruturais e passou a ser uma desculpa para não realizá-las.


O financiamento constantedos défices orçamentários de países que perpetuam desequilíbrios estruturaisnão ajudou a fortalecer o crescimento, já que a zona euro viu constantes cortesnas estimativas do PIB já antes da crise do COVID-19, mas está a encobrir ospopulistas de extrema esquerda que defendem a impressão maciça de dinheiro e aModern Monetary Theory (MMT) [Nota do editor: Para saber o que é a MMT, clique aqui, aqui, aqui e aquieste vídeo],ameaçando o progresso e crescimento da zona euro. O populismo não é combatido aincentivá-lo, e o impacto de médio e longo prazo desta política equivocada na zonaeuro é indiscutivelmente negativo.


Hoje, numerosospolíticos europeus dizem aos cidadãos que as reformas estruturais e a prudênciaorçamentária são coisas que foram implementadas por políticos maléficos com másintenções. E a mensagem de que há dinheiro ilimitado para qualquer coisa,quando e como for, é levada pelas ações do BCE.


É surpreendenteouvir alguns economistas sérios do BCE ou do Federal Reserve [o banco centraldos EUA] dizerem que não entendem como a ideia de que o dinheiro pode serimpresso eternamente sem risco se espalha por todo o debate político, quandosão os próprios bancos centrais que fornecem aquela falsa sensação desegurança. O banco central pode disfarçar o risco por um tempo, mas não oelimina.


– OProblema dos Juros Negativos


Grécia, Chipre,Lituânia, Eslováquia, Espanha, Portugal e Eslovênia já estão a tomarempréstimos a taxas de juro reais negativas. No entanto, taxas negativas nãosão um sinal de confiança nas políticas do governo, mas uma aberração dapolítica monetária que esconde o risco real. E mais cedo ou mais tarde,explode.


Quando ospolíticos dizem que rendimentos negativos refletem a confiança dos mercados nopaís, eles estão simplesmente a mentir. O BCE está a caminho de possuir 70% dadívida soberana em circulação na zona do euro e compra todas as emissõeslíquidas após os resgates, de acordo com o Pictet e o Financial Times. Não hámercado.

 

Esta confiançatemporária na capacidade do BCE de alterar o risco só é sustentada principalmentese a Alemanha continuar a financiá-la e, também, se a zona euro aumentar o seuexcedente comercial e a sua produção económica. Não é eterno, não é ilimitado, e,definitivamente, não é isento de riscos.


– UmaDécada de Crédito [artificialmente] Barato


Muitos leitoresdirão que esta é uma política excecional devido à crise COVID-19 que requermedidas excecionais. Só há um problema com este argumento: é falso.


A política do BCEtem sido ultra expansiva por mais de dez anos, em períodos de crise,recuperação, crescimento e estabilização. As taxas de juro foram reduzidas paranegativas e as compras de ativos aumentaram em períodos de crescimento e deestabilidade em que não havia riscos de liquidez na economia.


De facto, o BCEtornou-se refém de Estados que não querem reduzir os seus desequilíbriosestruturais mas pretendem perpetuá-los porque o custo da dívida é baixo e o BCEos “apoia”. O BCE deve estar preocupado com o facto de que os partidos maisradicais, muitos alinhados às políticas económicas da Argentina e da Venezuela,como Podemos ou Syriza, aplaudem esta loucura monetária como uma validação desuas teorias.


Não é por acasoque o ímpeto reformista na zona euro parou abruptamente desde 2014. Istocoincide exatamente com as maciças injeções de liquidez. As reformasestruturais e a prudência orçamentária são vistas como políticas perversas.Taxas de juro baixas e alta liquidez nunca foram um incentivo para reduzir osdesequilíbrios, mas, sim, um incentivo claro para aumentar a dívida.


O grande problemaé evidente. Uma vez implementada, a chamada política monetária expansionistanão pode ser interrompida. Alguém no BCE acredita que os países com déficeestrutural superior a 4% do PIB ao ano vão eliminá-lo quando emitirem dívida ataxas negativas? Alguém no BCE acredita honestamente que, depois da crise do COVID-19,os governos vão cortar orçamentos inchados? Dezenas de desculpas serãoinventadas para perpetuar uma política fiscal e monetária cujos resultados são,no mínimo, dececionantes considerando o enorme volume de recursos utilizados.


A pior desculpade todas é que “não há inflação de preços”. É como dirigir um carro a 480 km/hna rodovia, olhando pelo espelho retrovisor e dizendo: “ainda não nosmatamos, acelere”.


– Inflaçãode Preços de Ativos Financeiros


Não é surpresaque a zona euro tenha testemunhado um número crescente de protestos contra oaumento do custo de vida enquanto o banco central diz-nos que “não há inflaçãode preços”. Mas também é, pelo menos, imprudente dizer que há não há inflação depreços sem considerar os ativos financeiros que dispararam devido a estapolítica.


Os paísesinsolventes com títulos soberanos de dez anos de rendimento negativorepresentam uma inflação enorme. O aumento dos preços de bens e serviços nãoreplicáveis, que em muitos casos triplicam a taxa de inflação oficial, é umainflação enorme. Grandes aumentos de arrendamentos/aluguéis e dos preços de casase apartamentos não se refletem adequadamente na taxa de inflação de preçosoficial. É especialmente preocupante quando a política monetária encorajagastos improdutivos e perpetua o excesso de capacidade. Isto significa menorcrescimento da produtividade, o que significa menores salários reais no futuro.


Um estudo recentede Alberto Cavallo, da Harvard Business School, alerta para o diferencial entrea inflação real sofrida pelos consumidores, especialmente os mais pobres, e o CPI[Nota do editor: CPI (Consumer Price Index) – Taxa de Inflação de Preços aoConsumidor] oficial. Veja, por exemplo, o CPI da zona euro para novembro. Ovalor é –0.3%. Não há inflação de preços, certo? No entanto, nosmesmos dados, os alimentos frescos aumentaram 4.3%, os serviços 0.6% e ocomponente de energia caiu 8.3%, mas nenhum cidadão europeu viu uma queda de 8.3%em sua conta de energia, porque nem gasolina, nem gás natural ou eletricidade(incluindo impostos) caíram muito.


Na verdade, seanalisarmos o custo de vida usando os bens e serviços que realmente usamos comfrequência, percebemos que em uma crise sem precedentes como a de 2020, ospreços para a classe média e as camadas mais pobres sobem muito mais rápido doque o CPI mostra. E isto, somado ao fator de distorção da enorme inflação dosativos financeiros, gera enormes problemas sociais.


– Ignorandoos Riscos


O facto de que,por enquanto, riscos enormes não sejam percebidos – ou não sejam percebidospelos gestores do banco central – não significa que eles não estejam a aumentar.A dívida de rendimento negativo, que atingiu o recorde de US$ 18 trilhões emtodo o mundo (liderada pela zona euro e pelo Japão) não é um sinal deconfiança, mas sim de um enorme risco de estagnação secular.


Quando os líderesdo banco central argumentam que oferecem apenas uma ferramenta, mas ao mesmotempo dão recomendações de política fiscal e orçamentária a encorajar os paísesa se endividarem e gastarem muito mais, não só o banco central perdeindependência no médio prazo, mas é o mesmo que um garçom que não para deservir bebidas, incentiva a pessoa beber à vontade e depois fica indignado poresta pessoa ficar bêbada.


A introdução destesenormes desequilíbrios apresenta riscos significativos. E estes não são minha especulaçãodo futuro; são realidades hoje. A enorme desconexão entre ativos financeiros ea economia real, estados insolventes se financiando a taxas negativas, bolhasem ativos de habitação e infraestrutura, dívidas de empresas zumbis ou dívidalixo com rendimentos historicamente baixos, aumento agressivo em investimentosalavancados em setores de alto risco, a perpetuação do excesso de capacidade,etc. Ignorar todos estes fatores em uma instituição monetária é mais do queperigoso, é irresponsável.


Não é hora defazer tudo custe o que custar, aconteça o que acontecer. É hora de defender osound money [Nota do editor: sound money se refere a dinheiro que nãointervencionado pelo governo, que não é inflacionado] ou a credibilidade dasinstituições afundará ainda mais à medida que o coro consensual dos economistasconvencionais canta aleluia enquanto o prédio desaba.

 


Artigooriginalmente publicado no Mises Institute.


Tradução e ediçãode André Marques.


Autor: DanielLacalle é um economista e gestor de fundos espanhol, autor dos bestsellers Freedom or Equality (2020), Escape from the Central Bank Trap(2017), e Life in the Financial Markets (2014). É professor de economia na IE BusinessSchool em Madrid.


Nota: As opiniõesexpressas neste artigo não necessariamente vão totalmente de acordo com as daElementum Portugal e do tradutor/editor deste artigo.