À medida que mais países copiam a políticamonetária do Federal Reserve [o banco central dos EUA] sem a demanda global queo dólar americano possui, financiando o comércio e os défices fiscaisimprimindo uma moeda que está a ser enfraquecida, as nações tornam-se maisdependentes do dólar americano.


Nem os cidadãos domésticos neminternacionais exigem moeda local, e os governos continuam a construir grandesdesequilíbrios fiscais e comerciais, acreditando que a árvore mágica dodinheiro resolverá tudo. No entanto, à medida que a confiança em sua moedadoméstica entra em colapso, a dívida global denominada em dólares americnosaumenta porque poucos investidores desejam o risco da moeda local e os bancoscentrais precisam construir reservas em dólares americanos para amortecer obaque da desvalorização monetária.


A implementação das agressivas políticasexpansionistas quase sempre sai pela culatra porque o impacto de grandes planosde gastos sobre o crescimento é mínimo, e a destruição do poder de compra damoeda aumenta.


Portanto, não é surpresa que a maioria dasmoedas globais tenha se desvalorizado em relação ao dólar americano, mesmo emum ano de altas injeções monetárias feitas pelo Federal Reserve e aumentos dospreços das commodities. Quando um país exportador de commodities vê sua moedacolapsar, apesar do aumento das exportações, é possível ver que, novamente, a ModernMonetary Theory (MMT) evaporou [Nota do editor: Para saber o que é a MMT,clique aqui, aqui, aqui e aquieste vídeo].

À medida que a economia doméstica e a moedaem países como Brasil, Argentina ou Turquia pioram, os governos colocam a culpano Fundo Monetário Internacional (FMI).


A relação dos países com o FMI sempre viramanchete quando os governos já gastaram o dinheiro que tomaram emprestado e nãoquerem devolvê-lo. Curiosamente, poucos parecem criticar o FMI quando eleresgata governos de seus desequilíbrios fiscais, e comentários ásperos sóaparecem quando o dinheiro precisa ser devolvido.


A primeira coisa que os cidadãos devementender é que a melhor relação que um governo deve ter com o FMI é a mesma quetemos com os empréstimos. Use-o o menos possível.


Os cidadãos devem entender que o objetivodo FMI não é resolver os problemas estruturais de uma economia, mas fornecerliquidez e ajudar os governos a manter sua posição de crédito.


Se um governo esbanja o dinheiro quearrecadou e destrói sua confiança, isto não é culpa do FMI. Além disto, se estegoverno continuar a aumentar os desequilíbrios como se os fundos fossem livrese irrelevantes, nem o FMI nem qualquer outra entidade de crédito global vairesgatá-lo.

 

O problema do FMI não é ser muito exigentecom os governos ou sufocar as economias, mas ser extremamente benigno comgovernos perdulários e nunca impedir Estados que resolvem tudo com aumento deimpostos, afundando a renda disponível dos pagadores de impostos. Se o FMI é oculpado por algo, é por ser frequentemente muito gentil com as políticasgovernamentais extrativistas e confiscatórias.


Nos últimos 30 anos, o mundo passou pormais de 100 crises financeiras. Coincidentemente, estes períodos de expansão dabolha e subsequentes crises são impulsionados por planos governamentaiserroneamente chamados de “expansivos” e por bancos centrais aumentando a ofertade moeda sem controlo. E os governos tendem a se apresentar como a solução paraos problemas criados por suas próprias políticas.


O FMI raramente diz aos governos o quefazer. Na melhor das hipóteses, sugere e tende a ser extremamente acomodativo aaumentos de impostos. Para o FMI, o governo é o pilar da credibilidade docrédito, e os gastos públicos raramente são questionados. Embora o FMIreconheça a carga crescente sobre os pagadores de impostos e o impacto doaumento da carga tributária sobre o crescimento económico e o emprego,raramente penaliza os governos que gastam demais e sobrecarregam os impostos.Os artigos do FMI e suas análises empíricas são quase unânimes em mostrar oimpacto negativo do aumento de impostos sobre o crescimento económico e os empregos,além dos fracos (senão negativos) multiplicadores fiscais dos gastos do governo.Porém, a própria organização parece ter tanto medo de ser chamada de defensorada austeridade [Nota do editor: veja os benefícios da austeridade aqui, aqui e aqui]que deixou de recomendar prudência fiscal.


O problema de recomendar gastos eempréstimos em períodos de taxas de juro baixas e excesso de liquidez é que,quando tudo explode, os governos reclamam de supostas solicitações de“austeridade”. Quando o FMI sugere moderar os gastos, os estados se rebelam,mesmo que tenham desperdiçado o apoio anterior.


O FMI geralmenteresponde a todas as crises da seguinte forma:


– Aceitar as medidas dos governos com umaperspetiva construtiva, diplomática e benigna.


– Recomendar medidas de liberalização eplanos de moderação orçamentária que nunca foram realizados ou visaram, como naArgentina ou na crise europeia, apoiar a todo custo estruturas estataishipertrofiadas. Quase todas as “medidas de austeridade” implementadas nosúltimos trinta anos dependeram fortemente de aumentos de impostos, e não daredução dos gastos correntes, o que enfraquece ainda mais as economias.


As organizações internacionais raramentereprimem o desejo de intervenção dos governos e, em muitas ocasiões, oencorajam.


É verdade que o FMI pode errar nas suasprevisões, mas é um dos organismos internacionais mais acertados e, quando seengana, costuma ser por otimismo, aceitando como válidas as expectativas dogoverno em exercício.


A relação que os governos devem ter com oFMI é a mesma que devemos ter com um advogado ou um banco de crédito: tentarusá-los o mínimo possível.


Os problemas da Argentina e de outraseconomias emergentes não foram criados pelo FMI. Se o FMI pode ser acusado dealguma coisa, é de ter sido otimista com as promessas dos governos.


A lição desta crise é que, se os governosquerem evitar consequências negativas no futuro, devem ignorar as chamados desirene que lhes dizem para aumentar os desequilíbrios [fiscais e monetários]para “crescer”. A história provou que gastos e endividamento hoje sempre levama uma crise amanhã. 2+2 não é igual a 22. Quanto menos os governos copiarem o FederalReserve ou pedirem apoio do FMI, melhor.

 

 

Artigo originalmente publicado no site doDaniel Lacalle.


Tradução e edição de André Marques.


Autor: Daniel Lacalle é um economista egestor de fundos espanhol, autor dos bestsellers Freedom or Equality (2020), Escape from the Central Bank Trap (2017), e Life in the Financial Markets (2014). É professor de economia na IE Business School em Madrid.


Nota: As opiniões expressas neste artigonão necessariamente vão totalmente de acordo com as da Elementum Portugal e dotradutor/editor deste artigo.