Neste mundo de insanidade monetária, osdefensores da constante política monetária expansionista do banco centraltentam todos os dias convencê-lo de que a inflação é causada por váriosfatores, não pela impressão de moeda.


Muitos culpam a inflação por fatores deaumento de custos ou mesmo especulação, mas, em última análise, todas estas sãoconsequências, não causas. O aumento dos preços é sempre causado por maisunidades de moeda sendo direcionadas para ativos escassos ou tangíveis.


Os ETF’s de commodities são um exemplo claro.Em 2022, os investidores estão a comprar estes produtos para se proteger dainflação e gerar retornos reais. Eles não são uma causa, são uma consequência.Com o aumento das preocupações inflacionárias, a probabilidade de aumento dastaxas de juros e preocupações geopolíticas elevadas, os fundos focados emcommodities registaram entradas recordes em 2022. No acumulado do ano até 25 defevereiro, os ETF’s de commodities reuniram US$ 8.5 mil milhões em entradaslíquidas de ETF’s, de acordo com o wealthmanagement.com. E, de acordo com a CommodityFutures Trading Commission (CFTC), o valor total de vários instrumentosrelacionados a índices de commodities adquiridos por investidoresinstitucionais aumentou de cerca de US$ 15 mil milhões em 2003 para cerca deUS$ 200 mil milhões. O tamanho do mercado global de Commodity Services éestimado em US$ 4 trilhões em 2020, de acordo com a Market Research.


Em 2020, a maioria dos investidores estavainvestindo pouco em energia e commodities. O aumento do ‘InvestimentoSocialmente Responsável’, bem como o histórico recente de desempenho inferiordas commodities em relação a títulos e ações, foram os motivos. À medida que aspreocupações com a inflação e os eventos geopolíticos passaram a ocorrer, osfundos realocaram capital em energia e em commodities em 2022.


Isto aconteceu ao mesmo tempo em que os bancoscentrais injetaram quantidades sem precedentes de dinheiro na economia. Entre2020 e 2021, os ativos dos principais bancos centrais aumentaram mais de US$ 10trilhões. Além disto, o crescimento do agregado monetário M3 aumentou na taxade dois dígitos em 2020 e 2021 nas principais economias.


Obviamente, um ou dois preços podem subirindependentemente devido a eventos específicos. Uma guerra pode causar isto,mas não um aumento generalizado de todos os preços. Além disto, os preços dascommodities e dos alimentos já estavam a subir para máximas de vários anos,mesmo antes da invasão da Ucrânia ser um boato.


Os leitores podem acreditar que tudo isto sedeve à especulação dos traders, mas as ações dos traders funcionam nos doissentidos. Eles não criam preços; eles negociam com os preços. Além disto, elesnão podem influenciar o preço marginal de uma mercadoria por muito tempo se osfundamentos, a inflação e a realidade monetária não estiverem presentes.Existem inúmeros relatórios da CFTC que provam que o investimento não afeta ospreços das commodities. Entre 2013 e 2019, os preços das commodities nãosubiram. Por quê? Porque o crescimento monetário não estava acima da demandareal de dinheiro.


Petróleo e gás aumentaram igualmente em todosos lugares, mas a inflação é muito diferente na zona euro, ou nos EUA, emcomparação a países onde as importações de energia são muito maiores, comoJapão ou Coreia. Por que a inflação é duas vezes maior na zona euro ou nos EUAem relação a estes países asiáticos? Devido a um crescimento monetário muitomaior em 2020-21.


A guerra na Ucrânia criou outra desculpa paraculpar o petróleo e o gás natural pela inflação. No entanto, parece que todosaqueles que culpam as commodities pelas pressões inflacionárias continuam aignorar o aumento maciço nos preços da habitação, saúde, educação, bem como deoutros bens e serviços. O mesmo pode ser dito sobre os preços globais dosalimentos. Os Índices Globais de Preços de Alimentos da ONU e da FAO vêm a subirde forma constante e atingiram máximas de todos os tempos mesmo antes da crisedo Covid-19.


Petróleo e gás serão, novamente, usados comoculpados pela inflação, enquanto as taxas de juro baixas e a criação maciça demoeda permanecem sendo os reais culpados. Mas a realidade é que quando ospreços do petróleo e do gás diminuírem de alguma forma, o problema dadesvalorização da moeda permanecerá.


A inflação já era superior à medida do IPC(Índice de Preços ao Consumidor) antes da crise do Covid-19. O aumento dospreços de bens e serviços não replicáveis, habitação, saúde, alimentos frescose educação foi significativamente superior ao percentual do IPC. De acordo como Deutsche Bank, estes estavam a subir até cinco vezes mais rápido que o IPC.Havia inflação alta nas coisas que consumimos todos os dias, mesmo nos dias emque alguns diziam que “não havia inflação”.


Agora, o aumento da oferta monetária traduziu-seem uma explosão em todos os preços, relacionados à energia ou não. Algunsculparão os salários; outros culparão a guerra na Ucrânia e outros culparão afraca recuperação. O fato é que a destruição da moeda está no centro dosaumentos generalizados de preços em todos os lugares. O resto são anedotas ouconsequências, não causas.


Mais unidades de moeda estão a ir para ativosescassos em busca de proteção contra a inflação. Isto não é especulação; éproteção contra a desvalorização da moeda.



Artigo originalmente publicado no site doDaniel Lacalle.


Tradução e edição de André Marques.


Autor: Daniel Lacalle é um economista e gestorde fundos espanhol, autor dos bestsellers Freedom or Equality (2020), Escapefrom the Central Bank Trap (2017), e Life in the Financial Markets (2014). Éprofessor de economia na IE Business School em Madrid.


Nota: As opiniões expressas neste artigo nãonecessariamente vão totalmente de acordo com as da Elementum Portugal e dotradutor/editor deste artigo.