Na última quinta-feira, o FOMC (Federal OpenMarket Committee, o comité de política monetária do banco central dos EUA, oFederal Reserve – Fed) aumentou a taxa básica de juros em 50 pontos-base (0.5%). Foi um aumento de 0.4% para 0.9%. Foi o maior aumento em22 anos (desde 2000, o Fed só havia feito aumentos de 0.25%). Em março desteano, o Fed fez um aumento de 0.25%, o primeiro desde 2018.


Em dezembro de 2021 e em janeiro de 2022, o FOMC havia sinalizado este aumento de juros em março, a aceleração dotapering (processo de redução gradual do ritmo de compras mensais de ativos porparte do banco central até o ponto de encerrar o programa de compras de ativos,o que significaria que o Fed iria parar de aumentar o seu balanço) – afirmandoque terminaria em março (ou seja, a partir de abril, o Fed não mais aumentariaseu balanço) e até mesmo uma contração do balanço do Fed (ou seja, vender osativos que estão em sua posse, diminuindo seu balanço e a base monetária – M0,processo chamado Quantitative Tightening – QT), que é o inverso do QuantitativeEasing – QE, expansão do balanço do banco central e do M0 através das comprasde ativos).


Em dezembro de 2021 e janeiro de 2022, o Fednão realizou o tapering. Nestes meses, seu balanço sofreu aumentos de US$ 107mil milhões e US$ 103 mil milhões, respetivamente. Apenas em fevereiro e março de 2022, o Fed realmente realizouo tapering. Nestes meses, seu balanço sofreu aumentos de “apenas” US$ 31.5 milmilhões e US$ 32.7 mil milhões, respetivamente. E, desde o fim de março, seubalanço está relativamente constante.


Antes do anúncio do tapering em novembro, oFed estava a comprar cerca de US$ 120 mil milhões em ativos por mês (US$ 80 milmilhões em títulos de dívida federais e US$ 40 mil milhões em títuloslastreados em hipotecas, as Mortgage Backed Securities – MBS’s). Ou seja, obalanço do Fed (que está próximo dos US$ 9 trilhões) vinha a sofrer aumentos decerca de US$ 120 mil milhões todos os meses (o que significa que o M0 aumentavaa um ritmo semelhante):


Figura 1 – Balanço do Fed e M0 (2020-2022)


M0 (Linha Vermelha); Balanço do Fed (Linha Verde).

Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.

E, como o Fed comprou muitos títulos de dívidafederais recém-emitidos (para cobrir boa parte do défice orçamentário federal),o dinheiro criado pelo Fed foi gasto pelo governo e entrou diretamente naeconomia, aumentando os agregados M1 e M2 (M1: moeda em circulação e depósitosà ordem; M2: M1 + depósitos a prazo), como é possível ver na figura 2. E, destaforma, a taxa anual de inflação ao consumidor (o CPI – Consumer Price Index)disparou a partir de 2021, atingindo 8.5% em março de 2022 (figura 3). Este é oCPI oficial e o governo alterou a sua metodologia de cálculo na década de 1990(veja como aqui). De acordo com o Shadow Government Statistics, secalculado com a metodologia de 1980, o CPI está acima de 16%.


Figura 2 – M1 e M2 (2008-2022)


M1 (Linha Preta); M2 (Linha Amarela).

Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.


Figura 3 – CPI (Abril 2021 – Março 2022)


Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


Como mencionado acima, o Fed realizou um aumentoude juros de 0.5%. O IORB (Interest Rate on Reserve Balances), que é a principaltaxa que o Fed utiliza para influenciar o FFR (Federal Funds Rate, a taxabásica de juros dos EUA), aumentou de 0.4% para 0.9%. Em julho de 2021, o IORBsubstituiu o IOER (Interest Rate on Excess Reserves, a taxa de juros que osbancos recebiam do Fed sobre as reservas em excesso que mantinham junto ao Fede que era a principal taxa que o Fed utilizava, desde 2008, para influenciar oFFR) e o IORR (Interest Rate on Required Reserves, a taxa de juros sobre asreservas compulsórias que os bancos devem manter junto ao Fed). Para saber osdetalhes sobre como o Fed passou a influenciar o FFR através do IOER a partirde 2008, leia aqui, nas páginas 29 a 35 e leia estes artigos (parte 1 e parte 2).


Veja na figura seguinte como o FFR fica quaseno mesmo patamar que o IOER (e, agora, o IORB):


Figura 4 – FFR, IOER e IORB (2019-2022)


FFR (Linha Vermelha); IOER (Linha Verde); IORB(Linha Laranja).

Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.


Jerome Powell (presidente do Fed) afirmou emmarço que, se necessário (para conter o aumento da taxa de inflação), o FOMC iriarealizar aumentos de juros maiores do que 0.25% em futuras reuniões. Pelo menosdesta vez foi o que realmente aconteceu. Mas, como mencionei aqui, o Fed não deve chegar muito longe no aumento de juros sem provocar umaturbulência no mercado financeiro (ou até um bear market, um mercado de baixa)ou uma recessão económica.


E, ao realizar este aumento de 0.5% na semanapassada, Powell sinalizou que o FOMC irá realizar um aumento de 0.5% em cadauma das duas próximas reuniões do FOMC. E o FOMC afirmou que deve começar adiminuir o balanço em junho, vendendo até US$ 30 mil milhões em títulos dedívida do governo federal e até US$ 17.5 mil milhões em MBS’s em junho, julho eagosto.


O patamar mais alto que o FFR atingiu noúltimo ciclo de alta de juros (2015-2018) foi 2.4%. Em dezembro de 2018 houveuma queda significativa nos índices de bolsa americanos e em setembro de 2019houve uma crise no mercado das operações compromissadas e o Fed passou ainjetar liquidez neste mercado (na prática, fazendo Quantitative Easing,aumentando seu balanço). O Fed havia começado a diminuir seu balanço no final de 2017 (mas já emsetembro de 2019 voltou a aumentá-lo) e começou a subir os juros em dezembrode 2015 (mas voltou a baixá-los no primeiro semestre de 2019).


Ou seja, o Fed já não conseguiu diminuir seubalanço e aumentar os juros anteriormente. Desta forma, novamente, o maisprovável é que a economia não suportaria um aumento de juros. O Fed parou desubir os juros para evitar uma queda significativa dos mercados no final de2018, quando a taxa de juros havia atingido apenas 2.4%. Naquela época, adívida federal dos EUA estava em “apenas” US$ 22 trilhões; hoje, já ultrapassouos US$ 30 trilhões.E as dívidas dos estados, dos municípios, de empresas e de consumidores, tambémestão maiores. Portanto, é possível que o patamar máximo que a taxa básica dejuros pode atingir sem que haja complicações no mercado financeiro e naeconomia real já seja menor do que 2.4%. O Fed possui um espaço ainda menorpara subir juros neste momento (e só diminui confirme as dívidas aumentam).


O Fed ainda nem começou a contrair seu balançoe o FFR ainda nem sequer atingiu 1%. Mesmo assim, o PIB dos EUA teve umacontração de 1.4% no 1º trimestre deste ano (porém, isto ainda não pode ser considerado uma recessão, pois para tal énecessário uma contração económica de pelo menos dois trimestres seguidos). Omercado imobiliário está a contrair, conforme os juros das hipotecas aumentam. E a taxa de inflação está a superar o aumento dos salários.


Os juros do título de dívida de 10 anos dogoverno dos EUA têm aumentando nos últimos meses, atingindo pouco mais de 3%. Os jurosdeste título são referência para juros de longo prazo para as empresas. Se osjuros de longo prazo aumentam, o valor presente de suas receitas futurasdiminui e suas ações tendem a cair. E é justamente o que tem acontecido:


Figura 5 – Índice das Ações dos EUA


S&P 500 (Azul); Nasdaq (Laranja); RUSSEL2000 (Verde); Dow Jones (Amarelo).

Fonte: Trading View – Elaboração Própria.


Além disto, os bancos comerciais voltaram aregistar perdas não realizadas em janeiro de 2022.Um aumento/diminuição do valor dos ativos que o banco possui em seu balançorepresenta um ganho/perda não realizada (que ocorreria caso os ativos fossemvendidos). Uma das medidas que o Fed costuma tomar para converter as perdas nãorealizadas em ganhos não realizados é diminuir o FFR.


Veja na figura 6 que quando o Fed aumentava oFFR (linha verde, eixo da direita) os bancos passavam a ter perdas nãorealizadas (linha roxa, eixo da esquerda, abaixo de 0), e, para impedir isto, oFed passava a diminuir o FFR. Veja também que as recessões económicas(representadas pelas barras cinzas) ocorriam depois ocorrerem perdas nãorealizadas. Isto, por si só, não significa que haverá, com certeza, umarecessão agora (devido a estas perdas não realizadas), já que há outros fatoresa serem considerados. Porém, isto mostra a fragilidade do sistema, considerandoque o Fed nem sequer havia começado o tapering, nem aumentado os juros emjaneiro e, mesmo assim, os bancos já estavam a registar perdas não realizadas.


Figura 6 – Ganhos/Perdas Não Realizadas dosBancos e FFR (1998-2022)


Ganhos/Perdas Não Realizadas dos Bancos (LinhaRoxa, Eixo da Esquerda); FFR (Linha Verde, Eixo da Direita).

Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.


Como já afirmei em artigos anteriores, o Fednão tem muito espaço para aumentar os juros ou reduzir seu balanço significativamentesem haver complicações no mercado financeiro e/ou na economia real. Mesmo que comecea contrair seu balanço e continue a aumentar os juros, não deve chegar maislonge do que nos últimos ciclos de aumento de juros (2015-2018) e redução dobalanço (2017-2019).



André Marques