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Daniel Lacalle | A Crise Energética da Europa foi Criada por Intervenções Políticas

Uma política energética que proíbe o investimento em algumas tecnologias devido a visões ideológicas e que ignora a segurança do abastecimento está fadada a um fracasso estrepitoso.

 

A crise energética na União Europeia não foi criada por falhas de mercado ou falta de alternativas. Foi criada por imposição política.

 

As energias renováveis ​​são uma força positiva dentro de um mix energético equilibrado, mas não por si mesmas (devido à natureza volátil e intermitente de suas tecnologias). Os políticos impuseram um mix energético instável que proíbe tecnologias básicas que funcionam quase 100% do tempo e isto fez os preços dispararem para os consumidores e ameaçaram a segurança do abastecimento.

 

Ursula Von Der Leyen, presidente da Comissão Europeia, deu duas mensagens que ganharam muitas manchetes. Primeiro, ela anunciou uma forte intervenção no mercado de eletricidade e, em seguida, declarou na Cimeira de Segurança Energética do Mar Báltico a proposta de aumentar as energias renováveis ​​para 45% do mix total de geração até 2030. Ela considera que esta não é uma crise energética, mas “uma crise de combustível fóssil.”

 

No entanto, as mensagens de Von Der Leyen têm dois problemas. A crise energética da Europa deve-se a uma intervenção [governamental] em grande escala. Além disto, o aumento maciço das energias renováveis ​​não elimina o risco de dependência da Rússia ou de outros fornecedores de commodities.

 

O mercado europeu de eletricidade é provavelmente o mais intervencionado do mundo. Mais intervenção não vai resolver os problemas criados por um projeto político que tornou a matriz energética da maioria dos países cara, volátil e intermitente.

 

A ideologia é uma má parceira na energia.

 

Entre 70 e 75% da tarifa de eletricidade na maioria dos países europeus são custos regulados, subsídios e impostos estabelecidos pelos governos. E, na parte restante, a chamada geração “liberalizada”, o custo das licenças de CO2 disparou devido a esses mesmos governos que limitam a oferta de licenças e a matriz energética é imposta por decisões políticas.

 

Na Alemanha, apenas 24% de todos os custos em uma conta doméstica são “custos de fornecedores”, de acordo com o BDEW 2021. A maioria dos custos são impostos e custos definidos pelo governo: encargos da rede (24%), sobretaxa de energia renovável ( 20%), imposto sobre vendas (IVA) (16%), imposto sobre eletricidade (6%), taxa de concessão (5%), taxa de responsabilidade offshore (0.03%), sobretaxa para usinas de calor e energia (0.08%), taxa para desconto da indústria nas taxas de rede (1.3%). No entanto, o “problema”, segundo as mensagens da Presidente da Comissão Europeia, é o mercado.

 

É surpreendente ler que os mercados de energia da Europa são “mercados livres”, quando os governos impõem as tecnologias dentro da matriz energética, monopolizam e limitam as licenças, proíbem o investimento em algumas tecnologias ou fecham outras, bem como forçam um aumento do custo das licenças de CO2 limitando seu abastecimento.

 

A intervenção foi desligar a energia nuclear e depender massivamente de gás natural e lignito, como fez a Alemanha. A intervenção foi proibir o desenvolvimento de gás natural não convencional doméstico na Europa. A intervenção é fechar os reservatórios quando a energia hidrelétrica é fundamental para reduzir as contas domésticas. A intervenção é aumentar os subsídios e depois aumentar os impostos sobre tecnologias eficientes. A intervenção é parar o gasoduto que duplicaria as interligações com a França. A intervenção é proibir a mineração de lítio enquanto se fala em defender as energias renováveis, que precisam do lítio. A intervenção é preencher a conta do consumidor com impostos e custos regulados que nada têm a ver com o consumo de energia. A intervenção, em essência, é a cadeia de erros na política energética que levou a Europa a ter eletricidade e gás natural duas vezes mais caros do que nos EUA.

 

Os preços da energia na Europa não são caros por acaso, mas por design. O aumento exponencial dos subsídios, dos custos regulados e do preço dos direitos de emissão de CO2 são decisões políticas.

 

Eliminar energias nuclear e hidráulica, que funcionam o tempo todo e substituí-las por renováveis ​​que precisam de backup de gás natural e investimentos pesados ​​em infraestrutura é caro. Tem sido em toda a Europa, e continuará a ser.

 

Uma transição energética deve ser competitiva e garantir a segurança do abastecimento. Mais intervenção não resolve os problemas.

 

Os governos europeus devem se preocupar em apagar das contas domésticas todos os itens que não têm nada a ver com o consumo de eletricidade, incluindo o custo de erros de planeamento anteriores e baixar impostos. Esses itens devem estar no orçamento nacional e outras despesas não essenciais devem ser cortadas para evitar défices crescentes.

 

O mercado nem sempre é perfeito, mas a intervenção do governo é sempre imperfeita.

 

Os governos são muito ruins em escolher vencedores, mas são ainda piores em escolher perdedores. A intervenção constante deixa um rastro de dívidas e custos excedentes que todos os consumidores pagam.

 

O que acontece quando o governo intervém? Fecha a energia nuclear por obsessão ideológica e depois 40% de sua matriz energética depende de carvão, lignito e gás, como a Alemanha. Ou leva sua principal empresa pública à beira da falência por meio de tarifas intervenientes, como a França. Ou, como a Espanha, cria um conflito diplomático com seu maior fornecedor de gás natural, a Argélia, e, com isso, dobra suas compras de gás da Rússia desde o início da guerra até julho de 2022.

 

Agora, a União Europeia está a correr para instalar novas usinas flutuantes de regaseificação. Mais de trinta. O problema? Praticamente todos os navios de gás natural liquefeito para este inverno já foram contratados.

 

Os mesmos governos que se recusaram a fortalecer as cadeias de fornecimento de gás natural quando era barato agora estão a correr para gastar grandes quantias em soluções de baixa eficiência.

 

A instalação de energias renováveis ​​não elimina a dependência do gás natural. As energias renováveis ​​são, por definição, intermitentes e voláteis, além de difíceis de planear. Além disto, a instalação de mais energias renováveis ​​também exige grandes gastos em investimentos em transmissão e distribuição, o que torna a tarifa mais cara.

 

Investir mais em renováveis ​​é positivo, mas nenhum político pode dizer que são a única solução. O problema de armazenamento, o custo astronómico de uma rede de baterias e a infraestrutura necessária, estimada em mais de € 2 bilhões [Nota do editor: o equivalente a € 2 trilhões para português do Brasil] se fosse viável, são fatores chave. Se hoje a Europa tivesse um mix 100% solar e eólico, seria excessivamente volátil e intermitente, e em períodos de baixa disponibilidade solar e eólica aumentaria a dependência do gás natural, que é necessário como reserva, e a necessidade de energia hidráulica e nuclear (energias que funcionam o tempo todo). Adicionalmente, as energias renováveis, que são positivas num mix energético equilibrado, não reduzem a dependência de outros países. Os países tornam-se dependentes da China e de outras nações para lítio, alumínio, cobre, etc.

 

A instalação de 45% de renováveis ​​no mix não elimina a dependência do gás natural, apenas a reduz ligeiramente na parte do fator de carga renovável que é mais estável (parte da produção eólica). A dependência de períodos de baixa energia eólica e baixo rendimento solar seria extremamente alta e, como já experimentamos, coincidem com períodos em que o gás e o carvão são mais caros devido à maior demanda.

 

Se há uma coisa que esta crise nos mostra é que o que a Europa precisa é de mais mercado e menos intervenção. A Europa chegou a esta crise devido a uma combinação de arrogância e ignorância por parte dos legisladores que controlam a matriz energética. A importância de um mix equilibrado, com energia nuclear, hídrica, gás e renováveis ​​fica cada dia mais evidente.

 

A política energética intervencionista falhou miseravelmente. Mais intervenção não vai resolver.

 

 

Artigo originalmente publicado no site do Daniel Lacalle.

 

Tradução e edição de André Marques.

 

Autor: Daniel Lacalle é um economista e gestor de fundos espanhol, autor dos bestsellers Freedom or Equality (2020), Escape from the Central Bank Trap (2017), e Life in the Financial Markets (2014). É professor de economia na IE Business School em Madrid.

 

Nota: As opiniões expressas neste artigo não necessariamente vão totalmente de acordo com as da Elementum Portugal e do tradutor/editor deste artigo.

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