O Federal Reservee o Banco Central Europeu afirmam que o pico inflacionário recente é“transitório”. O problema é que os investidores não acreditam nisto.


A inflação ésempre um fenómeno monetário, e, desta vez, não é diferente. O que os bancoscentrais chamam de efeitos transitórios e o impacto nas cadeias de produção nãosão os verdadeiros causadores das pressões inflacionárias. Não há como negarcertos impactos na cadeia de produção, mas o tamanho do aumento dos preços decommodities agrícolas e industriais aos maiores níveis nos últimos cinco anos,além do abrupto aumento dos preços de bens não replicáveis e de serviços aosníveis mais altos da última década, são culpa da política monetária. A injeçãode trilhões em liquidez faz com que mais fundos persigam menos bens e o aumentoda inflação de preços sentida pelos cidadãos é muito mais alta que a registadapelo CPI.


Veja os preçosdos alimentos. O United Nations Food Price Index aumentou 30% nos últimos 5 anos,e 10% entre janeiro e abril de 2021. O aumento dos preços dos alimentos jácausou protestos ao redor do globo em 2018 e continua a atingir valores maisaltos. A correlação do aumento de preços da maioria dos bens agrícolas tambémmostra que é um efeito monetário.


O mesmo pode serdito a respeito do Bloomberg Commodity Index, que também atingiu os maioresvalores dos últimos 5 anos, e aumentou 10% entre janeiro e abril de 2021.


Sim, houvealgumas disrupções na oferta de algumas commodities. Mas não é algo difundido,muito menos a norma. Se algo pode ser dito é que o aumento dos preços dascommodities industriais e agrícolas tem ocorrido apesar do persistente excessode capacidade [quando as empresas têm capacidade de produzir mais do que omercado pode demandar] que muitas já possuíam antes da pandemia. Devemoslembrar, também, que uma das consequências não intencionadas de uma massivaexpansão monetária é a perpetuação do excesso de capacidade, que é refinanciadae mantida, mesmo em tempos de crise. Portanto, podemos argumentar que o aumentodos custos dos bens são está ligado, predominantemente, à escassez de oferta,pois há um ambiente de excesso de capacidade. Isto torna ainda mais evidente ofacto de a inflação de preços ser um fenómeno monetário.   


Podemos discutirsobre as diversas maneiras através das quais dos governos podem disfarçar oaumento dos custos de bens e serviços no CPI (Consumer Price Index), usandomédias questionáveis, excluindo impostos, e subestimando o peso de certos bensna cesta. Inclusive, a própria ideia do CPI, criada por Irving Fisher, foidisfarçar o aumento abrupto dos preços de certos bens fazendo a média com amudança de preços de outros. Os consumidores estão furiosos ao ver o preço dopão aumentar, digamos, 20%? Que tal incluí-lo na cesta de bens? A realidade éque esta correlação dos movimentos dos preços e a agressividade dos mesmosmostram que os bancos centrais dos países mais desenvolvidos simplesmente nãoirão mudar o curso da política monetária.


Sabemos que osbancos centrais não mudam o curso da política monetária, mesmo que a inflaçãode preços seja alta e persistente, pois já vimos isto ocorrer em diversospaíses, e em quase todos os países da Europa do Sul antes do euro.


Governos semprejustificam a impressão de moeda com a desculpa de que não há inflação depreços. Quando a inflação de preços aumenta, eles dizem que e transitório. E,quando aumenta persistentemente, culpam os empresários e se apresentam como asolução através de “controlos de preços”.


Os bancoscentrais são incapazes de normalizar a política monetária, pois eles são refénsde governos que simplesmente se recusam a reduzir os défices orçamentários,quando não podem tolerar nem mesmo um pequeno aumento dos rendimentos dostítulos de dívida.


Os investidoressabem disto e estão à procura de maneiras de proteger as poupanças de seusclientes da inflação e de um provável problema: estagflação [inflação de preçosacompanhada de estagnação económica ou até mesmo de recessão]. Um cada vezmaior número de fundos de investimentos vê o provável risco de estagnação apósa série de estímulos monetários acompanhados de aumento de preços. O CPI podenão refletir o aumento de preços da saúde, educação, alimentos earrendamentos/aluguéis, mas os cidadãos o sentem.


Há uma razão pelaqual em 2018 e 2019 vimos protestos contra o intolerável aumento do custo devida em toda a Europa e nos mercados emergentes ao mesmo tempo em que os bancoscentrais alertavam para o risco de deflação [o que não é um risco, pois adeflação é benéfica para os consumidores e para as empresas, com preços maisbaixos e margens de lucro maiores, respetivamente.] O custo de vida real temsubido mais rápido que os cálculos oficiais sugerem. Era um problema em 2018 eé um problema ainda maior após 2020.

Artigo originalmente publicado no site do Daniel Lacalle.


Tradução e edição de André Marques.


Autor: Daniel Lacalle é um economista e gestor de fundos espanhol, autor dos bestsellers Freedom or Equality (2020), Escape from the Central Bank Trap (2017), e Life in the Financial Markets (2014). É professor de economia na IE Business School em Madrid.


NotaAs opiniões expressas neste artigo não necessariamente vão totalmente de acordo com as da Elementum Portugal e do tradutor/editor deste artigo.