De acordo com oFMI [Fundo Monetário Internacional], o apoio fiscal global em resposta à criseserá de mais de 9 mil bilhões/trilhões de dólares americanos, aproximadamente12% do PIB mundial. Esta cadeia prematura, claramente apressada, provavelmenteexcessiva e muitas vezes mal orientada dos chamados planos de estímulodistorcerá as finanças públicas de uma forma que não víamos desde a II GuerraMundial. O enorme aumento dos gastos públicos e a queda da produção levarão aum endividamento global dos governos próximo a 105% do PIB.


Se somarmos adívida pública e privada, falamos de uma dívida de cerca de 200 mil bilhões/trilhõesde dólares americanos, um aumento global de mais de 35% do PIB, bem acima dos20% vistos após a crise de 2008, e tudo em um único ano.


Este aumentobrutal do endividamento não vai impedir que as economias caiam rapidamente. Oprincipal problema dessa cadeia de estímulo global é que ela é inteiramenteorientada para apoiar os gastos governamentais inflados e os rendimentosartificialmente baixos dos títulos de dívida pública. Esta é a razão pela qualuma resposta monetária e fiscal global tão massiva não tem feito muito paraevitar o colapso em empregos, investimentos e crescimento. A maioria dasempresas (pequenas, sem dívidas e sem ativos) está sendo exterminada.


A maior parte destanova dívida foi criada para sustentar um nível de gasto público projetado paraum boom cíclico, não uma crise, e para ajudar grandes empresas que já estavam comproblemas em 2018 e 2019, as chamadas empresas ‘zumbis’.


De acordo com o Bank Of International Settlements (BIS), a percentagem deempresas zumbis – aquelas que não podem cobrir seus pagamentos de juros dedívidas com lucros operacionais – explodiu no período de estímulos gigantes etaxas de juro reais negativas, e o número disparará novamente.


É por isto quetoda essa nova dívida não vai impulsionar a recuperação económica. Provavelmenteprolongará a recessão.


A dívida não égratuita nem irrelevante, mesmo que as taxas de juros sejam baixas, como osintervencionistas querem que acreditemos. Mais dívida significa menoscrescimento, uma saída mais lenta da crise, com menor crescimento daprodutividade e uma melhora tépida da empregabilidade. O argumentofrequentemente repetido de que “teria sido pior” se esses planos deresgate e gastos não tivessem sido implementados e que “nada mais poderiater sido feito” é facilmente refutável: os países que cairão menos em 2020,recuperam-se primeiro e fazem-no com as menores taxas de desemprego são os quetêm mantido planos de gastos prudentes, preservado o tecido económico eenfrentado a crise sanitária com protocolos sérios. Coreia do Sul, Taiwan,Cingapura, Áustria, Suíça, Suécia, Irlanda, Luxemburgo, Holanda… Muitospaíses não caíram na armadilha de gastos governamentais massivos,proporcionaram melhores resultados económicos e de saúde do que a maioria dasnações e o fizeram com níveis mais baixos de intervencionismo.


Muitos paísesmostram que não é necessário cobrir a economia com enormes desequilíbriosorçamentários para garantir a saúde. 

 

É importantelembrar estes números de enorme endividamento em função da desconexão entre omercado financeiro e a economia real, que atingiu níveis quase recordes eapresenta características de bolha. Em primeiro lugar, esses enormes estímulossão provavelmente muito grandes, muito prematuros e claramente voltados para asustentação de setores de baixa produtividade. Tudo isso amparado por umapolítica monetária que deixou de ser geradora de liquidez e passou a ser afonte de bolhas de ativos.


O balanço doBanco Central Europeu aumentou quase dois mil bilhões/trilhões de euros atéagora este ano [2020] e já é mais de 52% do PIB da zona euro, muito superior aodo Federal Reserve, que está em 32,6% do PIB do EUA ou Banco da Inglaterra,31,1%. O balanço do banco central do Japão já representa 117% do PIB e suasconsequências devem ser um sinal de alerta para todas as nações. O consumovoltou a despencar em maio e o país está estagnado há duas décadas com umadívida que ultrapassará 260% do PIB. Copiar o Japão é a receita para aestagnação secular.


O enorme aumento dobalanço dos bancos centrais para manter os rendimentos dos títulosartificialmente baixos empurrou o mercado acionário para cima, enquanto 80% dasempresas listadas abandonaram suas metas de lucro empresarial e os analistas têmreduzido as estimativas para 2020, 2021 e 2022 à maior velocidade da últimadécada, de acordo com o JP Morgan e o Bank of America.


Esta enorme açãodos bancos centrais leva a uma desconexão sem precedentes entre a economia reale o mercado de ações. A expansão dos múltiplos [nota do editor: múltiplos sãoindicadores de análise fundamentalista de ações, como P/L – Preço da açãodividido pelo lucro por ação; veja outros exemplos através desta ação em‘Indicadores Fundamentalistas’] acelerou ao mesmo tempo em que as estimativasde receitas despencaram.


Ao tornar ostítulos públicos proibitivamente caros [nota do editor: por consequência dejuros artificialmente baixos], duas coisas perigosas acontecem: os governosacreditam que os baixos rendimentos dos títulos se devem às suas políticas e osinvestidores correm muito mais riscos do que pensam que têm em suas carteiras.


Tudo isso pareceinofensivo se a bolha se expandir e o efeito placebo funcionar, mas se os dadosmacroeconómicos, de rendimentos e de emprego continuarem dececionantes, opróximo crash pode ser pior do que o desligamento económico, porque podeadicionar uma crise financeira à já enfraquecida economia. Infelizmente, quandoo próximo crash acontecer, governos e bancos centrais dirão que mais estímulossão necessários.

Artigo originalmente publicado no site do Daniel Lacalle.

Tradução e edição de André Marques.

Autor: Daniel Lacalle é um economista e gestor de fundos espanhol, autor dos bestsellers Freedom or Equality (2020), Escape from the Central Bank Trap (2017), e Life in the Financial Markets (2014). É professor de economia na IE Business School em Madrid.

Nota: As opiniões expressas neste artigo não necessariamente vão totalmente de acordo com as da Elementum Portugal e do tradutor/editor deste artigo.